Todo dia, milhões de brasileiros dependem do trabalho de servidores públicos. É na escola, no hospital, na assistência social, na segurança e em tantos outros serviços que o Estado se torna presente na vida das pessoas. Por trás de cada política pública que funciona, existem profissionais responsáveis por transformar decisões em entregas à sociedade. Mas será que estamos oferecendo a esses profissionais as condições necessárias para realizar seu trabalho?
Essa pergunta deveria orientar as reflexões sobre o Dia do Servidor Público, celebrado em 28 de outubro. Mais do que reconhecer a importância desses profissionais, precisamos discutir o que o Brasil tem feito para valorizá-los e preparar suas instituições para os desafios contemporâneos.
Recentemente, participei, em Paris, do Fórum Global sobre Confiança e Democracia, promovido pela OCDE. Representantes do Brasil, França, Reino Unido e Tailândia discutiram o futuro do serviço público. Apesar das diferenças entre seus modelos administrativos, uma conclusão atravessou as experiências apresentadas: não é possível transformar o Estado sem transformar a maneira como as pessoas que nele trabalham são lideradas, desenvolvidas e reconhecidas.
Uma pesquisa da OCDE e da União Europeia, realizada em 2024 com aproximadamente 57 mil servidores públicos, revelou que apenas cerca de 40% consideram que suas lideranças conduzem mudanças organizacionais de maneira eficaz. Metade dos participantes afirmou que regras e procedimentos dificultam a realização do trabalho. Outros 52% percebem que profissionais com desempenho insuficiente permanecem em suas funções sem apresentar melhorias.
Os resultados, apresentados no relatório Government Unstuck, publicado pela OCDE em outubro de 2026, revelam um problema que merece atenção. A disposição dos servidores para contribuir com a sociedade nem sempre encontra respaldo nas condições organizacionais necessárias para transformar esse compromisso em resultados.
Isso exige superar uma visão da gestão de pessoas como atividade meramente administrativa. Não basta organizar concursos, processar folhas de pagamento ou oferecer capacitações pontuais. É necessário planejar a força de trabalho, identificar as competências de que o Estado precisa, estabelecer critérios transparentes para a ocupação de posições de liderança e construir mecanismos de avaliação e desenvolvimento profissional que contribuam efetivamente para a melhoria dos serviços públicos.
As lideranças merecem atenção especial nesse processo. São elas que conduzem equipes, organizam prioridades e transformam estratégias em ações. Uma boa liderança pode criar condições para que profissionais desenvolvam seu potencial. Uma liderança despreparada, por outro lado, pode comprometer o trabalho e a saúde mental de toda uma equipe.
Também precisamos reconhecer que os desafios do serviço público mudaram. A transformação digital, o avanço da inteligência artificial, as mudanças demográficas e as demandas cada vez mais complexas da sociedade exigem novas competências e formas de organização do trabalho. Preparar os servidores para essas transformações é uma responsabilidade institucional, que não pode depender exclusivamente da iniciativa individual de cada profissional.
No Brasil, esse debate ganha ainda mais relevância diante das desigualdades de capacidade entre governos e instituições. Enquanto algumas administrações conseguem estruturar políticas de desenvolvimento profissional e gestão de lideranças, outras ainda enfrentam dificuldades para planejar suas equipes e oferecer condições adequadas de trabalho. Essas diferenças afetam diretamente a capacidade de implementação das políticas públicas e, consequentemente, a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Por isso, modernizar a gestão de pessoas deve ser uma prioridade de Estado. Precisamos construir políticas institucionais capazes de assegurar continuidade, profissionalização e desenvolvimento das equipes públicas, respeitando as particularidades de cada esfera de governo. Essa agenda também precisa ocupar um lugar mais relevante no debate sobre reforma administrativa. Discutir o funcionamento do Estado é necessário, mas limitar essa discussão à redução de despesas significa deixar de enfrentar questões essenciais sobre sua capacidade de entregar resultados.
O Brasil precisa de uma reforma que olhe para o funcionamento das instituições, para a qualidade das lideranças, para os incentivos organizacionais e para as condições em que os servidores exercem suas funções. Uma reforma comprometida com a eficiência, mas também com a valorização profissional, a garantia de direitos e a qualidade dos serviços públicos.
Há ainda uma dimensão que não podemos perder de vista. Um serviço público de excelência é uma condição importante para o fortalecimento da democracia. A confiança nas instituições também se constrói na experiência cotidiana das pessoas com o Estado. Quando uma política pública funciona, quando um direito é assegurado e quando um serviço responde adequadamente às necessidades da população, a democracia ganha concretude.
É por isso que, no Movimento Pessoas à Frente, defendemos que a gestão de pessoas esteja no centro das estratégias de fortalecimento da capacidade estatal. É uma agenda de interesse público, fundamental para que o Brasil consiga enfrentar suas desigualdades e avançar em seu desenvolvimento.
Neste Dia do Servidor Público, a melhor homenagem que podemos prestar a esses profissionais é assumir um compromisso com a transformação das instituições em que trabalham. Valorizar quem faz o Estado funcionar é garantir que tenha as condições necessárias para fazê-lo funcionar cada vez melhor. E um Estado que funciona melhor para a sociedade é também um Estado que fortalece a nossa democracia.
Jessika Moreira é diretora-executiva do Movimento Pessoas à Frente.