As transformações tecnológicas, sociais e econômicas das últimas décadas vêm alterando profundamente o mundo do trabalho. No setor público, não seria diferente. Estudo publicado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF), em parceria com o Núcleo de Inovação, Inteligência Artificial e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral (FDC) sobre o futuro do emprego, demonstra que o perfil do trabalhador está evoluindo significativamente em resposta às novas demandas do mercado de trabalho. Percebe-se uma priorização pelo desenvolvimento de habilidades tecnológicas, com um foco acentuado em competências relacionadas à IA, Big Data, e segurança cibernética pelos indivíduos.
As competências exigidas também mudam. Cerca de 39% das habilidades existentes deverão ser transformadas ou tornarem-se obsoletas entre 2025 e 2030, segundo dados do estudo do WEF. Frameworks de competências de países como Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul já mudaram seu perfil incluindo competências como alfabetização em dados, adaptabilidade e reflexividade em seu rol de prioridades. O treinamento, requalificação e aprimoramento de habilidades estão no centro das estratégias das organizações para lidar com essas mudanças, com 85% dos líderes planejando priorizar o upskilling (aprimorar e atualizar as habilidades que um profissional já possui) de sua força de trabalho.
Relatório sobre o futuro do emprego, produzido em 2025 pelo WEF, coloca as 10 habilidades com maior índice de crescimento até 2030, as primeiras se referem as transformações tecnológicas, mas também criatividade, resiliência, gestão de talentos e questões ligadas a gestão ambiental também entram, demonstrando uma tendência em observar também a preocupação com a sustentabilidade e resiliência climática.
A transformação digital, como já evidenciado, entra no centro das discussões sobre futuro do emprego, e é um dos principais vetores dessa mudança. O avanço da inteligência artificial, da automação de processos, da análise de dados e da interoperabilidade de sistemas está reduzindo a necessidade de execução de tarefas repetitivas e burocráticas, historicamente associadas ao serviço público.
A digitalização dos serviços públicos já demonstra resultados expressivos. O crescimento dos canais digitais permitiu ampliar o acesso da população aos serviços governamentais, reduzindo custos e aumentando a eficiência administrativa. Mais do que uma mudança tecnológica, trata-se de uma transformação na forma como o Estado se relaciona com os cidadãos. O servidor do futuro deixa de ser um executor de procedimentos para assumir um papel de articulador, solucionador de problemas complexos e agente de inovação.
Estudos da Escola Nacional de Administração Pública (Enap) indicam que diversas ocupações sofrerão impactos significativos da automação nos próximos anos, podendo inclusive levar à extinção de determinadas carreiras. Ao mesmo tempo, surgem novas demandas profissionais relacionadas à gestão de dados, desenvolvimento tecnológico, inovação e formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
Essa discussão é importante para pautar também a forma como a administração pública constrói suas carreiras hoje, deixando pouco espaço para a atração, recrutamento e retenção de pessoas estratégicas para esse novo cenário, ao mesmo tempo que direciona para carreiras que podem se tornar obsoletas com o tempo, como é o exemplo de mateiro, discotecário, técnico de móveis e esquadrias, locutor e seringueiro. Carreiras que já se encontram defasadas e são gradativamente extintas com a proibição de realização de novos concursos e a aposentadoria daqueles que ocupam hoje esses postos;
Outra discussão relacionada ao tema indica a necessidade de maior flexibilidade na gestão da força de trabalho, com processos seletivos mais modernos, fortalecimento das escolas de governo, valorização da qualificação profissional e ampliação da avaliação de desempenho como instrumento de desenvolvimento e melhoria dos resultados organizacionais. Esses fatores contribuem para uma maior profissionalização da administração pública, e, consequentemente, maior atratividade de perfis adequados ao serviço público do futuro.
A diversidade também ocupa posição central. A construção de burocracias mais representativas, capazes de refletir a pluralidade da sociedade brasileira, contribui para políticas públicas mais inclusivas e efetivas. Questões relacionadas a gênero, raça e inclusão geracional passam a integrar a agenda estratégica da gestão pública, fortalecendo a legitimidade das instituições e ampliando a capacidade de compreensão das necessidades dos cidadãos. Não é possível pensar o futuro do serviço público sem trazer o tema da diversidade à tona.
Entretanto, a transformação do trabalho no setor público não depende apenas de tecnologia e novas competências. O engajamento dos servidores emerge como elemento fundamental para o sucesso das mudanças. Fatores como propósito, autonomia, reconhecimento, segurança psicológica, participação nas decisões e oportunidades de desenvolvimento possuem forte influência sobre a motivação e o desempenho das equipes. Em um contexto marcado por mudanças constantes, organizações públicas que promovem ambientes de confiança, aprendizagem e colaboração tendem a apresentar melhores resultados.
Assim, o emprego do futuro no serviço público será caracterizado por uma combinação entre tecnologia, inovação, diversidade e valorização das pessoas. Mais do que dominar ferramentas digitais, os servidores precisarão desenvolver competências humanas capazes de lidar com problemas complexos e gerar soluções centradas no cidadão. O desafio dos governos será construir instituições mais flexíveis, inteligentes e adaptáveis, capazes de transformar burocratas tradicionais em agentes de transformação social. Nesse novo cenário, o futuro do serviço público dependerá menos da execução de rotinas e mais da capacidade de criar valor público em uma sociedade cada vez mais dinâmica e conectada.
Renata Vilhena é professora associada da Fundação Dom Cabral, consultora em gestão pública e autora de diversas publicações na área. Graduada em Estatística pela UFMG, possui especialização em gestão pública e formação executiva pela FDC. Foi Secretária de Estado de Planejamento e Gestão de Minas Gerais.