Quando se fala em ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança, o debate costuma girar em torno da representatividade. Afinal, se as mulheres são maioria da população e ocupam parcela expressiva dos postos de trabalho no setor público, por que ainda são minoria nos espaços de decisão? Embora essa questão seja fundamental, ela não é a única que importa. Assim, ampliando o debate sobre mulheres em postos de liderança, propomos uma reflexão sobre o que muda quando as mulheres chegam ao poder.
A burocracia pública não é apenas uma estrutura administrativa responsável por implementar políticas. Ela também é um espaço onde valores, práticas e formas de exercer autoridade são produzidos e reproduzidos. Por isso, compreender a atuação das mulheres em posições de liderança ajuda a entender não apenas quem está em espaços de poder, mas também como esse poder é exercido.
Nesse sentido, uma pesquisa baseada em entrevistas com 70 mulheres que ocupam ou ocuparam cargos de liderança no governo federal brasileiro revela que a presença de mulheres está associada a mudanças importantes nas dinâmicas organizacionais. Entre os aspectos mais recorrentes está a valorização da escuta, da empatia e da atenção às necessidades das equipes. No lugar de fomentar modelos de gestão centrados exclusivamente na hierarquia e no controle, muitas dessas líderes adotam práticas mais colaborativas e inclusivas.
Isso não significa que exista uma forma única ou naturalmente feminina de liderar. Significa, sim, que as trajetórias e experiências vividas pelas mulheres tendem a produzir sensibilidades e perspectivas que influenciam a maneira como exercem a liderança. Em um contexto historicamente marcado pela predominância masculina nos espaços de poder, essas experiências podem contribuir para ampliar repertórios e transformar culturas organizacionais.
Outro aspecto relevante é o papel das mulheres na promoção de outras mulheres. Muitas líderes atuam como mentoras, incentivam colegas e criam oportunidades para que novas lideranças femininas possam emergir. Trata-se de um efeito que vai além da ocupação individual de cargos, contribuindo para enfraquecer barreiras históricas e ampliar a diversidade nos processos decisórios.
A presença de mulheres em cargos de liderança também tem impactos nas políticas públicas. Ao incorporar diferentes experiências e perspectivas aos processos decisórios, essas lideranças contribuem para que políticas e programas reflitam melhor as necessidades de grupos diversos da população. Em especial, favorecem a inclusão de questões relacionadas a igualdade e equidade e ao enfrentamento de desigualdades historicamente negligenciadas.
Portanto, diversidade não é apenas uma questão de justiça ou representatividade. Ela também pode melhorar a qualidade da gestão pública e dos resultados das políticas públicas. Ambientes mais inclusivos tendem a estimular a inovação, ampliar a capacidade de diálogo e fortalecer a legitimidade das instituições. As evidências indicam que, quando as mulheres chegam à liderança, elas ajudam a transformar organizações, influenciam políticas e ampliam as possibilidades de construção de uma administração pública mais democrática, inclusiva e representativa. Afinal, quem lidera importa e a diversidade pode ser uma fonte de transformação institucional fundamental.
*Michelle Fernandez é professora adjunta do IPOL/UnB, possui doutorado em Processos Políticos Contemporâneos pela Universidad de Salamanca, além de formação em Ciência Política e Direito na Europa e no Brasil.